[Conto] O Novo Duque

Figgel Tannenbaum

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O Novo Duque

O vilarejo era banhado pelo avermelhado Sol da tarde quando saíram para apresentar-lhe a vila.
O banquete de boas-vindas fora farto e aberto a todos. A vila inteira se reunira ao redor da grande taberna do campo, agora transfigurada em sede da província. Tanto o salão principal da entrada quanto a praça em frente haviam sido tomados por longas mesas repletas de comida.
Caças, frutas e grãos típicos da península abundavam nas mesas, disputando a atenção e paladar da recém-chegada corte.

Findo o banquete, Greva Darn e Fernikus conduziram Tannenbaum e Erin pelo que hoje restava do feudo. Conversavam descontraidamente enquanto caminhavam a pé pelas largas vias de terra batida em direção às ruínas do antigo castelo.
A antiga taberna do campo já havia sido esvaziada e limpa, retornando à função de sede da província. No salão do andar superior, os outros dois conselheiros do antigo lorde debatiam ao redor de uma mesa e minguantes taças de vinho.

- Convencido? - disse o mais velho, reclinando-se na cadeira e entornando na boca o pouco vinho que restava em sua taça.
- Muito bem Mandrubar... muito bem. - retrucou Ragu, contrariado, ainda fitando a carta aberta sobre a mesa diante dele - Os selos são verdadeiros. É fato.
Mandrubar suspirou pesadamente enquanto devolvia a taça à mesa. Parecia que a discussão não acabaria tão cedo...
- Pois bem. - continuou o colega - a questão é COMO ele os conseguiu! - concluiu sua questão batendo o punho sobre a carta.
- Sob a ameaça de uma espada?? Não... seu tipo me parece mais ardiloso. Furtivamente, sim! Claro... - continuava Silverstone em um monólogo, desenvolvendo sua hipótese diante de um cada vez mais entediado e desesperançoso Mandrubar.
- E aquela garota? Você reparou nela? É atenta, Mandrubar! Trazia um arco às costas! Certamente participou disso tudo! Não me surpreenderia se tiverem algo a ver com o exílio do Rei...
- Conselheiro, Silvertone! - interrompeu Mandrubar, em mais um lapso de aborrecimento - Conselheiro! Assim como nós ao antigo Marquês!
- Um conselheiro nomeado Duque às vésperas de um exílio?! - retrucou euforicamente Silverstone - Não lhe parece conveniente demais, Mandrubar?! E a nobreza? Os herdeiros do trono?
- Tramando a sucessão, Silvestone... você é o mais fluente nesses assuntos entre todos nós! Não lhe pode ser tão complicado compreender isso, Ragu...

Não era. Ragu Silvertsone era o segundo mais velho entre a corte do antigo Marquês e o mais versado na política e assuntos da corte. A recente reviravolta no reino era perfeitamente compreensível - ainda que inusitada.
Percebendo sua autoridade ameaçada por disputas internas na corte e vendo a dificuldade de seu exército se recompor das recentes batalhas, o Rei antecipou-se aos usurpadores do trono e, sacrificando sua coroa, desferiu aos usurpadores do trono um brilhante golpe de honra.
Reuniu seus mais leais conselheiros e generais e diante da corte, agraciou-os com títulos de nobreza e províncias. Ao resto da corte, não lhes coube nem tempo suficiente para indignação - tudo já estava planejado e combinado para em dois dias o Rei estar a borde de um navio e fora do alcance dos fortes da cidade.
Os recém nomeados Duques, Condes e Barões seguiriam estratégia e compasso semelhante, junto com seus destacamentos de guarda e apoiadores. A Lua Nova e os incêndios provocados aquela noite garantiram o sucesso da evasão.

Ragu Silverstone compreendia, claro, mas não aceitava. Ele próprio descendia da nobreza e não aceitava que um outro conselheiro qualquer se tornasse Duque da noite para o dia e desembarcasse como novo soberano daquela província.
- E que tipo de conselheiro era esse Figgel Tannenbaum? Claramente não militar! Político? Duvido! Diga-me Mandrubar! Você que até trocou cartas com ele!
Antes que Mandrubar terminasse seu suspiro e respondesse, Rinbin irrompeu pela porta salão adentro.
- Alquimista! - alardeou como se houvesse uma multidão no salão - Alquimista real! Imaginem! - ria-se animado, circundando a mesa e seguindo para as portas no final do salão.
- E um mecenas também! - clamou mais uma vez ao abrir uma porta e enfiar-se sala dentro, preenchendo o salão com o barulho de madeira, metal e ruidosos instrumentos musicais indo ao chão.

Mandrubar ajudou Rinbin a carregar alguns instrumentos empoeirados para fora do depósito. Pelo que conseguira compreender das afobadas explicações, o novo Duque era apreciador das Artes e animou-se em ter a companhia de um Menestrel. Mandrubar então compreendeu a euforia do bardo, até então resignado em ser o Bufão da corte dos últimos dois lordes que governaram a província.
A Silverstone restou-lhe o salão vazio e os pensamentos inquietantes sobre a carta ainda sobre a mesa.
Com o Rei em exílio e um legítimo Duque instalado na província, a vontade de Tannenbaum era o que existia de mais próximo naquelas terras à vontade do Rei.
Felizmente, Ragu teria bastante tempo para se acostumar com isso.

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